Brasil: como o PL de IA pode afetar empresas de SaaS e startups
O PL de IA no Brasil (PL 2.338/2023) pode mudar o padrão de exigência para SaaS e startups que usam inteligência artificial: de “feature” para sistema auditável, com foco em gestão de riscos, transparência, rastreabilidade/logs, direitos do usuário (como explicação e contestação) e, em casos de alto risco, avaliação de impacto algorítmico e supervisão humana. Mesmo antes de virar lei, essas práticas tendem a entrar em procurement enterprise, contratos e due diligence, impactando vendas, roadmap e risco jurídico.

Nota rápida: este texto é informativo e não substitui aconselhamento jurídico. O PL 2.338/2023 ainda está em debate na Câmara, então detalhes podem mudar.
Se você vende SaaS (B2B ou B2C) e usa IA em recomendação, automação, scoring, detecção, moderação, copilots/assistentes, triagem e priorização, o “PL de IA” no Brasil tende a virar um novo padrão de enterprise readiness: clientes vão pedir evidências (governança, impacto, logs, direitos do usuário) antes de fechar contratos e investidores vão incorporar isso em diligência.
Hoje, o núcleo do debate é o PL 2.338/2023, em análise por uma Comissão Especial na Câmara, com a proposição aguardando parecer do(a) relator(a).
Em paralelo, o Executivo apresentou o PL 6.237/2025, que cria o SIA (Sistema Nacional para Desenvolvimento, Regulação e Governança de IA), e está aguardando despacho na Câmara.
A seguir, o que isso muda no seu produto e operação, do jeito que um time de startup consegue aplicar.
Em que pé está a regulação (e por que você deve agir antes da lei)
PL 2.338/2023 (Marco Legal de IA)
Está na Câmara desde março/2025 e tramita na Comissão Especial do PL 2338/23, atualmente com status “Aguardando Parecer do(a) Relator(a)”.
O texto traz uma lógica de riscos (inclui “alto risco”), direitos das pessoas afetadas, governança e sanções.
PL 6.237/2025 (SIA – governança e coordenação regulatória)
Propõe um “sistema” com CBIA (conselho estratégico), ANPD como autoridade designada e autoridades setoriais.
A justificativa do governo é coordenar competências regulatórias/fiscalizatórias e harmonizar regras, inclusive com poder de auditoria e avaliação de risco em certos casos.
Tradução para SaaS: mesmo antes de virar lei, o mercado (principalmente enterprise) tende a exigir práticas de “IA responsável” como critério de compra. Quem se antecipa ganha deals e reduz retrabalho.
A mudança de mentalidade: IA deixa de ser “feature” e vira “sistema auditável”
O PL 2.338/2023 trata o tema com base em “alto risco” e cria obrigações de governança e direitos. Ele também prevê que a classificação e a lista de “alto risco” sejam reguladas no âmbito do SIA, com atuação coordenada (autoridade competente + autoridades setoriais).
Na prática, isso puxa 5 exigências para qualquer SaaS com IA relevante:
Rastreabilidade (o que o sistema fez, com quais dados, quando, e por qual versão)
Gestão de risco (antes de colocar em produção e durante o uso)
Transparência (o usuário/cliente precisa entender “onde tem IA” e quais limites)
Supervisão humana em sistemas de alto risco (para prevenir/minimizar danos)
Avaliação de impacto algorítmico quando o uso for alto risco
O que muda no produto (backlog real para PM/Eng)
“Alto risco” vira uma categoria de produto (não só jurídica)
O texto prevê supervisão humana em sistemas de IA de alto risco e obrigações de informação sobre o exercício de direitos.
O que isso vira no roadmap:
Mapa de casos de uso (feature → decisão/impacto)
Gatilhos de alto risco (ex.: “afeta acesso a benefício”, “gera efeito jurídico relevante”)
UX de contestação/revisão (fluxo, SLA, logs associados)
Métricas de segurança e qualidade (drift, bias signals, taxa de erro em casos críticos)
3.2) Direitos do usuário: “explicação” e contestação ganham processo
O texto menciona direito à explicação e prevê procedimento simplificado, considerando critérios como complexidade e o porte do agente, incluindo startups.
Como implementar sem travar a startup (versão pragmática):
Explicação por camadas:
Camada 1 (usuário final): “por que você recebeu isso?” em linguagem simples
Camada 2 (cliente admin/CS): fatores, limites, fonte do dado
Camada 3 (auditoria interna): logs + versão do modelo + critérios + evidências
Botão/fluxo “contestar decisão” para outputs sensíveis (mesmo que seja B2B)
Avaliação de Impacto Algorítmico (AIA) vira documento-chave
O texto estabelece que a avaliação de impacto algorítmico é obrigação do desenvolvedor ou aplicador quando o sistema/uso for de alto risco.
E prevê que autoridades setoriais podem receber e analisar essas avaliações.
O “MVP” de AIA para SaaS (o suficiente para passar em procurement):
Finalidade + público afetado
Dados usados (origem, qualidade, vieses conhecidos)
Riscos previsíveis (erro, discriminação, segurança)
Medidas de mitigação (guardrails, human-in-the-loop, thresholds, fallback)
Testes e monitoramento (antes/depois de deploy)
Plano de incidente (como agir se der ruim)
O que muda no negócio (GTM, contratos, parcerias, funding)
Vendas enterprise: a diligência vai ficar mais “técnica”
Espere perguntas como:
Vocês têm inventário de IA por feature?
Há AIA para casos de alto risco?
Como funciona explicação/contestação?
Quais logs guardam e por quanto tempo?
Quem é responsável quando vocês usam modelo de terceiros?
Se você tiver isso pronto, encurta ciclo de venda e reduz “security/compliance review”.
Contratos e responsabilidade: mais cláusulas sobre IA
Mesmo antes de lei, clientes vão pedir:
anexos de transparência (“onde existe IA”)
limites de uso/escopo
auditoria e evidências (principalmente em setores regulados)
obrigações sobre incidentes e correções
Investimento e M&A
O texto prevê sanções relevantes (abaixo). Isso puxa diligência de risco:
histórico de incidentes
governança de dados e IA
documentação e controles
Sanções: por que isso entra no risco financeiro da empresa
O texto prevê sanções administrativas como advertência, multa simples até R$ 50 milhões por infração (ou até 2% do faturamento bruto, no caso de pessoa jurídica, excluídos tributos), além de medidas como publicização, restrição em sandbox, suspensão do desenvolvimento/fornecimento/operação e proibição de tratamento de certas bases de dados.
Tradução startup: o maior risco nem sempre é “multa amanhã”; é:
perder deals (falta de evidência)
atraso de roadmap (retrabalho)
risco reputacional em incidente
custo de adequação sob pressão
Como se preparar em 30 dias (sem travar o crescimento)
Semana 1 — Inventário e classificação
Liste todas as features com IA (incluindo automações “pequenas”)
Para cada uma: finalidade, dados, fornecedor, output, usuário impactado
Marque: “pode gerar efeito jurídico relevante?” / “pode impactar direitos?”
Semana 2 — Governança mínima e logs
Defina dono (RACI) e “AI review” antes de produção
Estabeleça logging mínimo: versão do modelo, inputs/outputs (quando aplicável), decisões, usuário/ação, contexto
Semana 3 — Transparência e UX de direitos
Labels e mensagens: “isso foi gerado por IA” / “limitações”
Canal de contestação/revisão para fluxos sensíveis
Help center + política de uso responsável
Semana 4 — AIA (MVP) para casos sensíveis + playbook
Faça AIA para os 1–3 usos mais críticos
Defina incident response (gatilhos, comunicação, rollback)